segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O Brasil no Mundial 82 - Alô RTP Memória!!!


A caminho de Espanha, o escrete passou aqui em Portugal para um estágio.

Pela TV e rádios passavam jornalistas brasileiros em série. Falavam de uma super-equipa, apesar de dois nomes muito contestados: Valdir Peres, o guarda-redes, e Serginho, o ponta-de-lança.

Quando o Brasil chegou à Portela e um jornalista brasileiro perguntou a Valdir Peres se achava se era o melhor guarda redes do Mundo, abri a boca de espanto. Não fazia a mínima ideia de quem era Valdir Peres, se era bom ou não, mas o melhor "Keeper" do Mundo não era de certeza. Para mim, os melhores do mundo eram, o Dasaev, o Zoff, o Schumacher,o Pfaff... Aliás o frango do primeiro jogo criou uma fama a Valdir Peres de pior guarda redes do Mundo, mas esse título era exagerado.
O Mundial Espanha 82 marcou indelevelmente a minha infância.
Foi uma competição extraordinária, disputada aqui mesmo ao lado (ainda que as distâncias nessa altura fossem bem mais difíceis de percorrer), e que juntou figuras como Maradona, Platini, Zico, Rummenigge, Breitner, Falcão, Sócrates, Paolo Rossi, Conti, Tardelli, Keegan, Krankl, Panenka, Dino Zoff, Kempes, Boniek e muitos outros, numa época em que o futebol ainda não tinha definitivamente sido conquistado pelo pragmatismo dos resultados.

É verdade que Portugal não esteve presente, mas isso até então era vulgar – apenas em 1966 a selecção nacional conseguira o apuramento. Não foi portanto esse “pormenor” que impediu que o país futebolístico parasse durante um mês, em frente dos televisores (a maioria ainda a preto e branco), a deliciar-se com a quantidade e qualidade das estrelas que lhe entravam pela casa dentro.
À falta de Portugal, era o Brasil (que até estagiou cá em Portugal) que nos alegrava a alma.Recorde-se que este Mundial contou com a participação de 24 países, o que além de representar uma novidade em termos de formato, significava um número acrescido de jogos – de 38 jogos nos mundiais anteriores, tínhamos agora 52, todos, ou quase, transmitidos pela televisão.
Vivia-se ainda nos dias da rádio, em que as transmissões televisivas se cingiam normalmente à final da Taça de Inglaterra, à final da Taça dos Campeões, e a um ou outro jogo da selecção nacional no estrangeiro.
Imagine-se pois o regalo que era durante um mês poder desfrutar de 52 jogos entre as melhores selecções do mundo, recheadas de algumas das estrelas mais cintilantes da história da modalidade.
Conforme disse, a esmagadora maioria dos portugueses apoiava a selecção brasileira. O nosso país, depois das convulsões revolucionárias, vivia uma fase de reencontro com os seus símbolos nacionais, e o mais importante de todos era a língua. Esse aspecto, paralelamente à possibilidade de êxito que uma selecção brasileira sempre abre em qualquer competição, fazia com que milhares, para não dizer milhões, de portugueses vibrassem com o “Escrete Canarinho”,até porque essa equipa do Brasil não era uma equipa qualquer.Se me perguntarem qual foi o melhor jogador do meu tempo, não hesito: Diego Maradona. Se me perguntarem qual o melhor conjunto, talvez responda o Milan de Sacchi ou o Liverpool de Paisley... O meu Benfica que o diga...
Se a questão contudo for qual a equipa que mais me encantou, ou aquela cujo perfume mais sedução espalhou, essa foi sem dúvida a selecção brasileira de 1982, que praticava o futebol mais bonito que alguma vez pude ver.
Era interessante que a RTP Memória pudesse um dia passar esses jogos, pois o requinte técnico, a magia colectiva alicerçada no talento individual de vários foras-de-série, a força ofensiva, a criatividade a tocar os limites da nossa imaginação, fazia desse Brasil uma selecção empolgante como nenhuma outra, e dos seus jogos, espectáculos deslumbrantes da mais pura arte.
Se no início do Mundial os portugueses já estavam com o “Escrete”, ao longo da prova os brasileiros terão cativado quase todo o mundo, e quando disputaram o acesso às meias finais coma Itália, talvez só na “bota mediterrânica” não arregimentassem apoios.
O Brasil começou a prova com a URSS, num jogo muito aguardado, até por motivos políticos – no Brasil a ditadura de Figueiredo ainda estava para durar, e na União Soviética vivia-se ainda a era Brejnev. Ao frango do guardião Valdir Peres nos primeiros minutos devido a um remate de Andrei Bal, respondeu o Brasil com uma segunda parte magistral, e dois golos sublimes de Sócrates e Eder (este no último minuto) que garantiram a vitória.
Em seguida o Brasil derrotou facilmente a Escócia por 4-1, e a Nova Zelândia por 4-0, com mais duas exibições luxuosas, apurando-se com toda a tranquilidade para a segunda fase da prova.
No grupo A, uma Itália tristonha e ineficaz conseguiu o apuramento por um…golo. Três empates deixaram-na atrás da Polónia, e em igualdade pontual com os surpreendentes Camarões. No "goal-average", mais um golo marcado que os africanos levou a Squadra Azurra para a segunda fase. Longe estávamos de saber onde chegaria depois.
O Mundial 82 teve um figurino competitivo único, que não mais se repetiria. Dos seis grupos iniciais eram apuradas doze selecções (até aqui tudo normal), mas depois, ao invés de eliminatórias, havia outra fase de grupos, então com quatro poules de três equipas cada.
Brasil, Itália e Argentina (com a base da equipa campeã em 78 reforçada com…Maradona), fruto dos segundos lugares destes dois últimos, constituíram um dos agrupamentos.
Um luxo !
Jogariam em Sarriá, ex-estádio do Espanhol de Barcelona (hoje demolido). Na primeira jornada Itália-Argentina, depois o derby sul-americano e por fim a reedição da final de 70.
Logo no primeiro jogo, a Squadra Azurra orientada por Enzo Bearzot, mostrou que as dificuldades da primeira fase não passavam de um equívoco. Com uma extrema eficácia na arte de contra-atacar, derrotou os campeões do mundo por 2-1.
Na segunda ronda tivemos oportunidade de desfrutar de mais um festival Brasil. Vencendo categoricamente a Argentina por 3-1 (podiam ter sido muitos mais), o Escrete realizou talvez a melhor de todas as suas exibições na prova. Maradona foi expulso por agressão a Batista, e a Argentina dizia adeus à competição e à revalidação do título. Ao Brasil bastaria o empate frente à Itália para seguir rumo às meias finais, onde tinha a Polónia à sua espera.

Chegou-se assim ao decisivo jogo, de um grupo onde, mau grado os nomes em presença, o Brasil, pelo que mostrara até aí, era claramente favorito.Numa tarde de sol e calor, a equipa de Tele Santana actuou com o seu onze base:
Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho, Júnior, Cerezzo, Falcão, Sócrates, Zico, Serginho e Eder.
Com um meio campo deslumbrante, o Brasil espalhava magia pelos relvados. Mas o seu guarda-redes, a sua estratégia defensiva e o seu ponta de lança (Serginho), ficavam um tanto aquém da qualidade geral da equipa.
Os italianos, matreiros, saberiam explorar isso muito bem.Enzo Bearzot fez alinhar :
Zoff, Gentile, Scirea, Colovatti, Cabrini, Oriali, Tardelli, Antognioni, Conti, Rossi e Grazziani.
Apesar de não ter marcado qualquer golo na primeira fase, Paolo Rossi, depois de dois anos a cumprir castigo por corrupção e viciação de resultados (no célebre caso “Totonero” que levou o Milan para série B), (ainda me lembro quando contava esse sucedido ao meu querido amigo Germano Amorim), Rossi era ainda a grande figura da equipa.
Mas Bruno Conti, em início de carreira, estava a revelar também o seu enorme talento. A força defensiva da equipa era notável .Zoff ainda era a par de Dasaev,o melhor do mundo na altura , e Gentile vinha de uma marcação impiedosa sobre Maradona que o secou por completo.
Logo aos seis minutos de jogo, Rossi recebe um cruzamento ao segundo poste e cabeceia para o fundo da baliza de Valdir Peres. A Itália praticamente entrava a ganhar, causando sensação.
Ainda havia muito jogo pela frente, e isso tratou de demonstrar Sócrates, cinco minutos depois, após um passe perfeito de Zico, restabelecendo um empate que todos aguardavam com naturalidade.
A meio da primeira parte, Paolo Rossi aproveita um passe errado de Leandro, isola-se e dispara à entrada da área para o fundo da baliza de um ineficaz Valdir Peres.
A Itália voltava a surpreender, e colocava-se de novo na frente do marcador, resultado com que se atingiria o intervalo.
Na segunda parte viu-se a um verdadeiro massacre brasileiro em busca do golo da igualdade que, recorde-se, apurava o “Escrete”. A Itália contra-atacava com perigo. Assistia-se a um espectáculo de sonho, com qualidade técnica e intensidade competitiva levada aos limites.
A pouco mais de um quarto de hora do fim, Falcão recebe a bola na intermediária transalpina, simula que vai flanquear, aproveita a desmarcação inteligente de um colega para ganhar espaço e faz um potente remate cruzado que bate pela segunda vez o veteraníssimo Dino Zoff .
Era o delírio nas bancadas pintadas de verde e amarelo. E eu faço ideia o ambiente no Brasil...
A imagem de Falcão a correr de braços abertos em direcção ao banco ainda permanece na memória de muitos de nós como um dos mais belos e marcantes momentos desse mundial.
O mais difícil parecia feito, mas o dia era mesmo de Paolo Rossi.Ainda se festejava o golo de Falcão e acontece um canto contra o Brasil. A bola vai para a área, é devolvida pela defesa sul-americana, mas a segunda vaga apanha Rossi (colocado em jogo por Júnior), que completamente sozinho diante de Valdir Peres, não tem dificuldade em desviar a bola para dentro da baliza brasileira, perante o espanto generalizado.
A Itália, a dez minutos do fim do jogo, ficava numa inesperada posição de apuramento.
O Brasil, o mágico Brasil, o assombroso Brasil, começava a ver bem perto de si a porta de saída do Mundial.
Os últimos momentos foram dramáticos. Zoff defendia tudo. Defendeu inclusivamente sobre a linha uma bola que fez gritar golo em todo o estádio. Em todo o mundo.
A Itália queimava tempo. Parecia sempre saber muito bem como o fazer.O árbitro apitou. Ninguém acreditava no que se estava a passar.Trinta e dois anos depois do “Maracanazzo”, a nação brasileira voltava a chorar uma dolorosa e cruel derrota da sua selecção. Em Portugal o sentimento era quase idêntico. Estava afastada do título mundial uma das melhores selecções de todos os tempos.
A Itália, sabe-se, embalou para o título mundial, com Rossi a marcar em todos os jogos até à final.O Brasil de Telé Santana teria nova oportunidade no México 86. Mas, noutro sublime jogo, seria novamente eliminado, novamente de forma cruel, por penáltis, diante da França de Platini.
Daí em diante o futebol não mais foi o mesmo.
A arte deu lugar ao rigor, a criatividade perdeu para a força.
Em Sarriá nessa tarde, morreu um conceito de futebol.

Um jogo que ficou para a história como um dos mais belos de sempre.
Inesquecível !
O Brasil no Mundial 82:

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Ayrton Senna : O melhor piloto de todos os tempos


Ayrton Senna foi, é e sempre será o meu piloto preferido da Formula1.

Lembro muito bem dos vários domingos que passei a ver os Grandes Prémios de Fórmula 1 na RTP1 e o prazer que eu tinha quando via o Senna a cortrar a meta em 1º lugar.

Ayrton Senna da Silva nasceu a 21 de Março de 1960, e em pequeno sofria de problemas de coordenação motora, resolvido eficazmente quando aos quatro anos começou a conduzir um pequeno veículo.

Depois foi o que se sabe, Ayrton transformou-se no melhor piloto de todos os tempos, era alguém que nos deliciava com a sua magia ao volante de um monolugar de Fórmula 1, alguém que não deixava ninguém indiferente, alguém com um talento, competência, concentração, rapidez e empenhamento nunca vistos, que se encontrava próximo da perfeição, que reunia em si todas as características que um piloto de competição deve possuir, alguém que marcou a Fórmula 1 para sempre.

Senna era genial, único e insubstituível.

E agora vamos eleger Ayrton Senna como o melhor piloto de todos os tempos!

O jornal Corriere Della Sera, da Itália, está a fazer uma pesquisa sobre quem é o melhor piloto de todos os tempos e os votos podem ser feitos pela internet.

Participem clicando aqui.

E já sabem, Ayrton Senna, o melhor de sempre!!!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Rinat Dasaev


Eles são uma espécie de contra-senso do próprio futebol.

Para eles o objectivo é evitar golos, não marcá-los; são os únicos jogadores cujos erros são na sua quase totalidade fatais; e também raras vezes alguém se lembra deles como os melhores jogadores do Mundo.

Contudo, também os guarda-redes têm o seu devido lugar na história do futebol: e se Lev Yashin, o Aranha Negra, foi o rei dos guardiões de todos os tempos, então Rinat Dasaev foi o melhor guarda-redes da minha geração. O melhor guarda-redes que vi jogar!

Quando se estreou pela equipa nacional da URSS com apenas 22 anos, suspirou-se de alívio: estava finalmente encontrado o homem que poderia herdar o legado daquele que foi o melhor de sempre, Yashin.

Rinat Dasaev era um guarda-redes mágico. Mágico porque tornava o impossível em real, tal e qual como um verdadeiro ilusionista. Dotado de uma extrema agilidade e reflexos incríveis, Dasaev praticamente desafiava leis da Física em algumas das suas intervenções. Como por vezes se costuma dizer, era um daqueles guarda-redes que ganhava os jogos com as suas defesas.

Dasaev fez carreira no Spartak de Moscovo e no Sevilha, tornando-se uma das primeiras estrelas do futebol soviético a fazer carreira fora do seu país, algo impossível antes da perestroika. Foi em Espanha que pendurou as luvas, aos 35 anos.

Pela sua selecção, Dassaev foi internacional 91 vezes, entre 1979 e 1990. Esteve presente nos "Mundiais" de 82, 86 e 90.

O seu momento de glória podia ter sido o Euro'88, disputado na Alemanha. Contudo, no caminho de Dassaev atravessou-se outro mito: Marco Van Basten, o "Cisne de Utrecht", cujo remate que o bateu na final de Munique não poderia ser detido por ninguém.

Foi como a seta que derrotou Aquiles no único sítio possível, o calcanhar.
Indefensável.

FreeRice - O jogo solidário


Já sabemos e conhecemos, algumas maneiras de sermos solidários com algumas causas nacionais e mundiais, tais como a violência, a pobreza, as calamidades e as injustiças.
Que tal se através de um pequeno jogo em que para cada palavra que aparece (em Inglês) escolhemos o sinónimo de entre quatro palavras possíveis, e que por cada resposta certa doamos 20 grãos de arroz para o Programa Alimentar das Nações Unidas?
Pois é, a FreeRice é uma organização sem fins lucrativos, que através do seu site oficial, nos permite que sejamos solidários nesta causa.

Eu já contribuí com alguns grãos de arroz e treinei o meu inglês.

http://freerice.com/

domingo, 27 de janeiro de 2008

Sugestão para os apreciadores de música:




















FRANK ZAPPA


1988 - You Can't do that on Stage Anymore, vol. 2 - The Helsinki Concert


O único da série de seis discos de "You Can´t do that on Stage Anymore" que captura uma única apresentação.
O Concerto foi gravado em Helsinquia na Finlândia a 22/09/1974.

A banda é da fase do excelente álbum "Apostrophe", considerada por muitos como uma das mais competentes já comandadas por Frank Zappa: George Duke (teclados), Napoleon Murphy Brock (sax), Ruth Underwood (percussão/marimba), Tom Fowler (baixo) e Chester Thompson (bateria).
A performance é impressionante. Este faz parte do conjunto de discos que eu conheci e me levaram a publicar esta mensagem.
Ouçam "Dupree's Paradise" seguida de "Satumaa (Finnish Tango)" e comparem com qualquer coisa dos Wheather Report, Mahavishnu Orchestra, etc... Tem ainda boas versões de "Stinkfoot" e da "Inca Roads". Gosto também muito da "Room Service" e do solo de "Pygmy Twylyte".
É muito interessante a introdução de Montana (Whipping Floss) que começa com o dobro da velocidade normal e é interrompida duas vezes pelo Zappa, que reclama de bom humor, os erros da banda. Na segunda, a uma voz feminina diz algo ao fundo (provavelmente a percussionista Ruth Underwood) e o Zappa diz "Is too fast for you?". Depois, a música recomeça ao ritmo normal.

Excelentes músicos.

Ficha Técnica:

Tush Tush Tush (A Token Of My Extreme) - 02:48

Stinkfoot - 04:19

Inca Roads - 10:55

RDNZL - 08:42

Village Of The Sun - 04:35

Echidna's Arf (Of You) - 03:30

Don't You Ever Wash That Thing? - 04:56

Pygmy Twylyte - 08:22

Room Service - 06:23

The Idiot Bastard Son - 02:40

Cheepnis - 04:29

Approximate - 08:11

Dupree's Paradise - 24:00

Satumaa (Finnish Tango) (Mononen) - 03:51

T'Mershi Duween - 01:32

The Dog Breath Variations - 01:39

Uncle Meat - 02:22

Building A Girl - 01:01

Montana (Whipping Floss) - 10:15

Big Swifty - 02:18


Frank Zappa--vocal, guitarra

Napoleon Murphy Brock -- sax, vocal

George Duke -- teclado, vocal

Ruth Underwood -- percussão

Tom Fowler -- baixo

Chester Thompson -- bateria


http://www.fzdb.de/

www.zappa.com/

http://www.zappa-analysis.com/

Digital vs Analógico


A febre do vinil voltou e parece ter pegado de estaca. Multiplicam-se as lojas, as edições e, é claro, o consumo.

Mas eu, apesar dos lançamentos do mini-disc e dos cd, nunca coloquei os meus vinis de parte!

Há uns dias um cohecido meu perguntava-me se eu tinha determinado disco, que ele queria ouvir (o álbum "Physical Graphiti dos Led Zeppelin", para os mais curiosos). Eu disse-lhe que sim, que tinha, mas que era em LP e não em CD. Parecia que tinha falado em servo-croata. "Em disco? Mas... em vinil? Isso ainda existe?". Pois é, para espanto do tal rapaz e para espanto se calhar de alguns dos leitores deste texto, o vinil não só não morreu como recomenda-se mais do que nunca.

Actualmente a FNAC e outras lojas já estão a vender vinis ao público. No entanto a 'moda' parece estar a pegar pois cada vez mais pessoas parecem estar a aderir (pela primeira vez ou de novo) ao vinil.

Cabe aqui uma explicação sumária das diferenças entre o som analógico (presente, por exemplo, num disco em vinil) e o som digital (presente, por exemplo, num CD.) Sumária pois não é aqui o local apropriado para me alongar e, temo, por não ser um especialista na matéria.

O som é uma onda, ou melhor um conjunto de ondas que atravessam o espaço. Essas ondas são medidas em hertz, inicialmente, mas para o caso em kilohertz (kHz). O som vai, em termos leigos, de muito grave a muito agudo. A distância que vai do som mais agudo ao mais grave é gigantesca. Seja só voz humana ou uma orquestra de 200 pessoas, uma gravação áudio contém uma quantidade enorme de informação. Esta informação reporta-se a uma amplitude sonora IMENSA, e só estou a falar daquela que os humanos captam, que não é toda. Um disco em vinil, quando prensado numa boa fábrica e cujo material sonoro venha de boas fitas analógicas, contém TODA essa informação. Toda. Por isso, quando se ouve um bom vinil ouve-se TUDO o que a banda gravou. Tudo o que eles ou elas queriam que nós ouvissemos. Um mau vinil terá praticamente tudo também, simplesmente não com a clareza e o brilho original. Eis o som analógico.

E o som digital?

Bem, por 'digital', e neste caso específico, compreende-se informação processada informaticamente e convertida em linguagem binária (zeros e uns). Acontece que a informação ocupa ESPAÇO e a informação áudio ou vídeo ocupa mesmo MUITO espaço. Nos finais dos anos 70 os engenheiros da Phillips (holandesa) e da Sony (japonesa) tentavam desenvolver um sistema sonoro baseado num medium que fosse mais pequeno que o LP, comportasse tantos ou mais minutos de música e que cuja produção ficasse barata. Assim desenvolveram, mais ou menos a meias, o CD (compact-disc, o nome diz tudo), um suporte que permitia conter até 74 minutos de música com uma qualidade, afirmavam, perfeita, e melhor ainda, eterna. Tinhamos portanto som altamente e para a vida toda. Os primeiros anúncios para televisão aos CD's reforçavam esta mensagem até ao absurdo, colocando um cão a apanhar, com os dentes, um CD atirado pelo dono. Este colocava-o a seguir no leitor e o CD estava impecável. :) Mas o que faz o CD (ou melhor, o som digital) ser pior que o vinil? Bem, a questão é até bastante simples: o mapa não é o território. O som, como foi referido atrás, é quase infinito na sua amplitude. A informação digitalizada em 0's e 1's não pode conter toda essa informação porque se o fizesse cada CD levaria meia dúzia de minutos de música.

Assim sendo, o que é feita é uma AMOSTRAGEM digital, isto é, selecionam uma amplitude determinada (no caso do CD, 44 ou 48 kHz) e é só isso que vai parar ao CD. Tudo o resto é cortado. Tudo o resto. Assim, não admira que, em casos como os álbuns "Electric Ladyland" ou "Dark Side of The Moon", tenhamos mais sons no vinil do que no CD. Tão simples quanto isso. Seja como for, o mais usual é não faltarem sons nas músicas, mas antes a sensação que fica no ouvinte perante os dois suportes.

Os seres humanos, até prova em contrário, são analógicos, não são 'digitais', e por isso reagem melhor ao som analógico. Se ouvir o mesmo álbum, nas mesmas condições e com material de igual qualidade, muito provavelmente preferirá ouvir em vinil. Testes 'cegos' (isto é, sem que os testados soubessem qual era o CD e qual o vinil) tiveram os resultados que se esperaria - a grande maioria das pessoas prefere o vinil.

O som em vinil é quase sempre descrito como mais 'quente' e mais 'profundo'.

O som digital, quando comparado com o analógico, é descrito usualmente como mais 'frio' e 'linear'.

Num outro teste, feito em discotecas americanas, foi descoberto que os clientes ficavam até mais tarde naquelas em que eram utilizados discos em vinil em vez de CD's. A razão para isto é que de facto os 48 kHz da amostragem que é feita não chegam, pois não atingem as frequências mais altas e mais baixas, ficando-se pelas centrais. As frequências mais baixas (graves) são muitas vezes inaudíveis mas MEXEM connosco, definem a percepção do som, e ficar sem elas é não ter o quadro todo à nossa frente. Por fim, e apesar de ser uma razão talvez menor, há que referir o trabalho gráfico. Um LP é ENORME, e a capa do disco é GRANDE. As fotos dos ídolos são MAIORES e as letras não ficam em corpo 8! Em relação à aquisição de gira-discos e dos discos em si, o cenário está cada vez melhor. Algumas das megastores em Lisboa e Porto já começam a ter (e encomendam se o cliente pedir) as edições em vinil dos álbuns que vão saindo. Existem ainda lojas da especialidade, mas só nas grandes cidades. Quem tiver acesso à internet e um cartão de crédito, só precisa de ter dinheiro na conta. A maior parte das grandes lojas on-line tem uma secção bem recheada de vinil e existem, claro sites epecializados. Em relação ao 'hardware' :), está disponível nas lojas de alta-fidelidade (se bem que num hipermercado pode comprar um gira-discos sony por 75 euros), de 250 eiros até ao infinito. Se, tal como eu, não tiver ouvido de purista, qualquer gira-discos de qualidade serve.

O mercado em segunda mão também é para ter em conta, pois arranjam-se gira-discos clássicos EXCELENTES a uma parcela do preço que valem. Se depois de tudo isto não ficou convencido, ÓPTIMO!

O vinil de facto não presta e tudo o que tem a fazer é dar-me todos os LP's que tiver aí em casa que eu vou busca-los de borla. Sou amiguinho ou não sou?

Dizem que,por exemplo,as válvulas são coisas obsoletas, coisas do passado, mas e para áudio? Aí a história é outra, os valvulados são as melhores aparelhagens de som do mundo! Mais um ponto para os analógicos! Tenho uma última coisa a dizer... já ouviram falar de LP pirata? Mais um ponto para ele e para os analógicos!

sábado, 26 de janeiro de 2008

O nosso verdadeiro estádio.

A 1 de Dezembro de 1954, o Benfica inaugurou, pomposamente, o Estádio de Carnide. Só mais tarde lhe haveria de chamar da Luz. Joaquim Bogalho, o «homem do estádio», emocionou-se de tal modo que, para não desfalecer, teve de ser amparado pelos seus colegas de Direcção. Ribeiro dos Reis considerá-lo-ia, pela sua acção em busca do sonho... «o benfiquista número 1». E, naturalmente, houve futebol sobre o relvado ainda fresco. Ganhou o F. C. Porto ao Benfica por 3-1, como afinal, ganhara o Benfica ao F. C. Porto por 7-2 na inauguração das Antas. Enfim, festas trocadas... O festival de inauguração proporcionou uma receita de 1300 contos, a maior renda arrecadada até esse dia num espectáculo desportivo por um clube português.


Terceiro Anel: O Inferno da Luz

A direcção de Maurício Vieira de Brito não descurava a progressiva melhoria das instalações do clube e, após a inauguração da iluminação do Estádio, foi aberto aos adeptos o famoso "terceiro anel".

A nova bancada cedo se transformou na ilustração viva do carisma e da paixão que, desde então, se associam à "catedral" benfiquista.Como alguém escreveu com propriedade, o "terceiro anel" cedo foi visto como a "sagração de uma solidariedade", como o resultado de um esforço colectivo de uma geração de benfiquistas, à imagem da própria construção do Estádio. O novo "terceiro anel" funcionou sempre com uma espécie de décimo segundo jogador, um elemento que se viria a tornar decisivo em muitas e importantes vitórias do futebol benfiquista pelos tempos fora.

O causídico e antigo dirigente do clube, Alfredo Gaspar, descreveu no "Público" essa mística associada ao "inferno da Luz": "Era muito bonito, porque se choravam lágrimas de alegria, mas quem pegasse nelas e as atirasse ao ar, via que se transformavam no céu em pequeninas estrelas brilhantes.

Nesses momentos, os atletas do clube eram sublimes".

Construído com a ajuda e um enorme sacrifício de muitos sócios e simpatizantes do Benfica, a edificação desta obra fica registada como um marco que simboliza toda a grandeza e a enorme mística do clube mais popular de sempre em Portugal, um dos clubes a nível mundial com mais adeptos, ( se não for o maior), e um dos mais prestigiados de toda a Europa.

O nosso antigo estádio da Luz, quando chovia, fazia frio, sentavamo-nos em pedra, mas o estádio tinha bem mais gente a ver jogos do que nos estádios novos, pelo menos no caso do Estádio da Luz...

Que saudades...


Transcrevo aqui um belo texto de Mozer:

"É preciso sair do país para enxergar o prestígio e o tamanhão do Benfica em todo o mundo. Estive três anos em França, no Marselha, joguei num estádio fantástico, o Vélodrome, convivi com grandes jogadores como Papin e Waddle, mas o Benfica estará sempre no meu pensamento.Os meus companheiros de equipa não percebiam muito o meu entusiasmo pelo clube, já que sabiam pouco do futebol português, embora reconhecendo o tremendo historial do Benfica.
Durante os primeiros tempos tive de aturar os comentários de Papin, logo desde o início, sempre que jogávamos em casa.Uns dias antes de cada jogo, o Papin chegava para mim e me dizia: "Mozer, vais ver o que é um estádio cheio e um ambiente terrível."
Terrível para os outros. Não sei se o Papin dizia isso para me intimidar, já que era novo no clube e não percebia muito daquela conversa. Mas para mim, sempre pensava: "Este cara precisava de jogar no Maracanã ou no estádio da Luz, cheios." Era o que eu pensava.Até que, na taça dos campeões, nas meias-finais, o Benfica calhou no caminho do Marselha. Fiquei, ao início, desgostoso, porque ia defrontar o meu Benfica, o clube que os meus companheiros sabiam que eu adorava. Me lembro de Sauzée, o meu zagueiro do lado me ter perguntado: "Você vai estar em condições de jogar contra o Benfica?" Aí, senti que beliscavam o meu profissionalismo. Nos dois jogos joguei a duzentos por cento.
Depois do primeiro jogo, em Marselha, uns dias antes de jogarmos na Luz, virei para o Papin e lhe perguntei: " Papin, você quer mesmo ver o que é um estádio cheio, com 120 mil a gritar todos para o mesmo lado?" Engraçada a reacção do Papin: "Você, está querendo me meter medo, Mozer?" Não estava não e por isso lhe disse para esperar para ver. E já agora, tremer. Pois bem, chegou o dia, chegámos no estádio da Luz e fomos logo indo para os balneários. Muitos risos, muita convicção de que íamos jogar a final da Copa dos Campeões. Lembro até que Tapie disse aos jornalistas franceses que lhe podiam chamar de Bernardette se o Marselha perdesse a eliminatória.Antes de subirmos ao relvado, para o aquecimento, Papin ainda troçou de mim, dizendo que estava já "tremendo de medo". E ria-se bastante.
Os jogadores foram saindo do balneário e eu atrasei um pouco, porque estava colocando uma ligadura no tornozelo. Quando cheguei perto do túnel de acesso ao estádio, começo a ver os meus companheiros, completamente assustados e todos do lado de dentro, não querendo entrar. Só depois percebi que, nessa altura o Eusébio foi chamado ao relvado para receber uma homenagem e foi aí que o estádio quase vinha abaixo. Logo no momento em que os meus companheiros do Marselha se preparavam para entrar. Claro que voltaram atrás assustados e me perguntado: "O que era aquilo?".Aquilo respondi eu, é o INFERNO DA LUZ. Aí todos começaram a me dizer para ser eu o primeiro a avançar, subi as escadas, entrei no relvado, não fui mal recebido e quando olhei para trás, estava sozinho. Espreitando, à saída da escadaria estavam alguns dos meus companheiros do Marselha, ainda com um olhar de medo e só nessa altura começaram a entrar. No regresso às cabinas, perguntei a Papin: "Já sabes agora o que é um estádio cheio e um grande ambiente?" A resposta, nunca mais a esqueci: "Mozer, nunca vi uma coisa destas. Tudo isto é incrível. Sempre tiveste razão, o Benfica é ENORME!" Naquela noite, o Marselha perdeu, fiquei triste mas senti orgulho pelo Benfica. E já agora, naquele balneário, fui o único a ter uma vitória. Foi uma vitória moral, sobre aqueles que não acreditavam na grandeza do Benfica."

Não me importava de estar num estádio com um ambiente assim!!! Mesmo que chovesse e eu estivesse sentado em pedra gelada ou molhada...

Ah grande Benfica!!!

E que saudades do antigo estádio da luz...